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Não sou feminista porque quero

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Simplesmente eu sou feminista porque não tenho outra opção de existir se não for resistindo.


Não sou feminista porque quero
Como aquele náufrago no meio do oceano, consciente do perigo, da distância, do frio, de todos os riscos, probabilidades de morte etc.
Sabe que tem que optar entre o ócio e o nado, assim sou eu: mulher feminista!
Diante das estatísticas que gritam a nossa dor, que faz dos nossos lares barcos furados, desde a infância, sem bóias e sem saber nadar. Que sufocam os nossos pedidos de socorro aos nossos pais porque são eles também, assim como são os nossos primos, amigos, padrinhos, padrastos, tios, irmãos, avós, professores, patrões e estranhos, os nossos algozes, os "ice bergs" que submergem nossos barcos.
É ouvir os dados oficiais dando conta de que só teremos igualdade salarial com os homens pelos mesmos serviços prestados daqui a cem anos.
É ter os nossos corpos a serviço do Estado, gerido e legislado, hegemonicamente, por homens.
É ter que dividir tarefas do lar com minha mãe e irmã e ainda assim estudar para que meu pai e meus irmãos se dediquem com exclusividade ao crescimento intelecto/profissional.
É engravidar e ser demitida.
É ter que abrir mão da faculdade ou de um trabalho, para cuidar dos filhos, sem cogitar a possibilidade do seu companheiro fazer isso, ao invés de você.
É acumular sobre si esses históricos e não conquistar uma renda e se submeter à dependência de um homem violento e opressor para pagar o aluguel e colocar comida dentro de casa.
É ser estuprada maritalmente com requintes e sutilezas para manter uma relação conjugal, para merecer um valor social de uma "mulher de respeito".
É não ter voz política e ativa. É ter a fala descredibilizada. É ser tachada de louca quando não suporta mais ser silenciada. É ser interrompida a cada dez segundos. É ser humilhada por ser mulher. É ser chacota das piadas e risos insanos.
É ser alvo do estupro. É ser a mira preferida da arma dos homens.
O cotidiano de uma mulher é uma tsunami que não nos permite sair de casa, nenhum dia sequer, um só, aiiiiiiiiiiiiiiiiiii, me permitam gritar em meio aos relatos, nenhum dia, saíamos ou fiquemos em casa, estamos livre do assédio machista.
Tem sempre um motoqueiro que faz cera na pista, a fim de que ultrapassemos para ele consumir "nossas" bundas. É um caminhoneiro que nos assusta com sua buzina estridente e ri com deboche escroto. É um grupo de homens claramente inibindo "nossas" passagens no meio da rua, nos fazendo mudar o percurso, por puro constrangimento. É o entregador da feira que se acha no direito de nos assediar dentro das "nossas" próprias casas. É o colega de profissão que passa a mão boba sem nenhum contexto, de forma desnecessária. É uma roçada por trás no ônibus. É um abraço mal intencionado para se tirar "casquinhas" como eles dizem. É fazer compras e ter o "nosso" troco como álibi para alguém alisar "nossa" mão. É um pé desavisado em baixo da mesa quando visitamos uma amiga e o marido dela sabe que somos uma mulher separada.
É ser um nome num registro sem pai, afinal filha de puta não tem pai.
É ser "Pãe" e arcar com todas as demandas de uma vida com uma pensão que não dá para pagar a conta de luz e água , quanto mais garantir alimentação, educação, saúde e lazer, direitos básicos de uma criança. E como se não bastasse acompanhar nas atividades escolares, eventos e blá blá blá.
É ter que ser escrava da estética inacessível e nefasta, diante de todo o caos, sabendo a quem isso agrada e oprime, o comércio da beleza anda de vento em popa, enquanto somos o público alvo dos remédios psicotrópicos. É estar depilada para favorecer os ideários masculinos, tanta vezes, pedófilos. É estar maquiada, unha feita, cabelo escovado, corpo malhado e tudo que já sabemos... Se quisermos ser um mulherão!
E ainda não podemos esquecer daquelas que nem uma pensão vergonhosa ou atrasada recebem.
É não ter valor para além de um órgão sexual, órgão esse que não passa de uma buceta inútil, facilmente gritada quando xingamos e depreciamos algo que nos incomoda, mas o contrário é verdadeiro, para enaltecer e comemorar com algo estupendo, gritamos em êxtase: Caralho!
São termos chulos, sim eu sei, mas usamos inconscientemente, porém em total consonância com essa cultura machista e estruturada.
É tanta , mas tanta, mais tanta, mais tanta, tanta, tanta, tanta água tempestuosa... Tsunami. É uma Tsunami.
Não. Não é Mimimi. Não é vitimismo. É a realidade das mulheres. De algumas formas, às vezes todas, nós somos alcançadas.
Mesmo assim não aceitamos a estrada da autopiedade, antes, percorremos o caminho do amor próprio.
Não. Nós não somos feministas por que queremos.
Somos porque não temos outra opção na vida, mas isso também cansa.
Assim como cansa o náufrago no meio do mar, mas opta por nadar e, quiçá, sobreviver às águas profundas que lhe cercam.
Que todas as nossas dores e cansaços não nos roubem jamais a disposição na luta.
SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES.


Zaira Presente!
Simplesmente Sol, Currais Novos, 09 de março de 2019.

Literatura 8424360966527206235

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  1. Vivemos uma sociedade machista ao extremo, temos que admitir.

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